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Quem somos

Para conhecer um pouco da nossa história, leia matéria na íntegra publicada na edição 5 da Radar Magazine (jun/09).
 

A decisão estava nos minutos finais e o Sydney Brazilian Social Club (SBSC) vencia por 1 a 0, quando o atacante brasileiro recebeu a bola na área. Ele dominou, driblou o primeiro, driblou o segundo, passou pelo terceiro e, enquanto o resto do time gritava “chuta!”, “toca!”, ele fintou o quarto, ameaçou bater, esperou o goleiro cair e o encobriu com um toquinho sutil.


Este golaço coroou a histórica participação do SBSC no campeonato da Inner City Football Association (ICFA). Com a vitória por 2 a 0 sobre o poderoso La Ciccolina, os Canarinhos – como são conhecidos – em seu primeiro ano disputando a tradicional liga amadora de Sydney, sagraram-se o primeiro time brasileiro de futebol a levantar um caneco oficial na Austrália. O feito foi realizado em setembro de 2008, mas esta história começou muito antes. 

O ano era 1972, e o Brasil já havia conquistado 3 Copas do Mundo de futebol, enquanto a Austrália jamais se classificara para um Mundial – nem mesmo uma liga nacional profissional tinha. Na época, não havia tantos brasileiros quanto hoje por aqui. Mas os poucos que se aventuravam, iniciaram, timidamente, a se encontrar aos domingos para bater uma bola. “Uns jogavam em Rushcutters Bay e outros no Moore Park. Aí começaram a jogar somente no Moore Park”, afirma seu Carlos, um dos primeiros Canarinhos. Era o jeito de matar um pouco a saudade de casa, se divertir e falar português, pois no resto da semana era só trabalho e se virar com um inglês pra lá de “the book is on the table”. Além de Carlos, outros membros desta primeira geração como seu Macário, Baiano Bangu, Harold Rocha e Caju estão firmes até hoje, seja jogando ou apenas “cornetando” do lado de fora. A diversão é garantida!

Durante os anos 1970, nomes como Paulinho Dutra, Odilon e Wilson foram sinônimos de futebol-arte, e até hoje são lembrados com muito respeito pelos mais antigos. Mas eles não chegaram a jogar profissionalmente na Austrália, como o meia Agenor Muniz, o grande nome da primeira década. Agenor, que atuava pelo Vasco da Gama, desembarcou em 1971 com a primeira leva de jogadores profissionais que veio para o país. Ele foi contratado pelo Sydney Hakoah Club e, após se naturalizar australiano, chegou a defender a seleção nacional entre 1976 e 1979. O futebol do país, por sinal, vinha crescendo e alcançou dois importantes êxitos: a inédita classificação para a Copa do Mundo de 1974, com o time liderado pelo meia; e a criação da National Soccer League (NSL), em 1977, a primeira competição nacional de futebol na Austrália.

 

Agenor defendendo a seleção australiana, em 1976.

Alguns brasileiros passaram pela NSL. Um dos que mais se destacou foi o carioca de Maricá Nélio Borges, o Nelinho, que chegou na Austrália em 1979. Jogador amador no Brasil, ele foi descoberto por um olheiro que o trouxe com outros dois conterrâneos: Marquinhos e Mozart. Mesmo jogando profissionalmente na National Soccer League, Nélio, desde o início, fez parte dos Canarinhos. “Quando os jogos da liga caíam no sábado, domingo era certeza que eu vinha”, conta o veterano meia, que ainda faz seus gols.

Em 1989, do Moore Park a pelada passou para o Centennial Park, onde está até hoje. Àquela altura, os boleiros já haviam se tornado uma grande família. “Aqui, sempre que um precisa, tem o outro para ajudar. Se o cara está precisando de trabalho, é só aparecer que vai encontrar algum bico para fazer, ou algum trabalho mesmo”, diz Gelcimar Freire, o Gel, atual vice-presidente do clube.

 

O clube

Em uma tarde de 1996, após jogar contra um time de chilenos, um dos Canarinhos foi até o carro e pegou 6 garrafas de cerveja. “Ficamos lá, eu, o Nelinho e mais um pessoal, tomando uma cervejinha, e aí veio a idéia: pô, por que a gente não faz isso todo domingo, por que a gente não leva uma cervejinha? Contamos a idéia para o pessoal e eles gostaram. Foi aí que resolvemos fundar o clube”, conta Chicão, atual tesoureiro. A primeira reunião aconteceu em 23 de fevereiro de 1996, e os peladeiros overseas, que já haviam se tornado uma família, agora também tinham um clube.

O Sydney Brazilian Social Club é uma entidade filantrópica, sem fins-lucrativos, aberta para brasileiros e estrangeiros que se unem não só em torno do futebol, mas para aproveitar o pós-pelada, o que inclui cerveja e churrasco. Não é todo domingo que rola uma carninha, mas pelo menos uma vez por mês é realizado um churrasco com cerveja, pagode e, às vezes, feijoada e outras comidas típicas do país. Chicão explica: “Até então, terminava o jogo e o pessoal ia embora. Mas depois mudou. O pessoal começou a ficar e aproveitar. Quem sofre é a mulherada, que reclama que os caras vão jogar bola. Mas a gente precisa também”.

 


Jogando tanto tempo no mesmo lugar, os brasileiros ficaram conhecidos. Os próprios funcionários do Centennial Park passaram a se referir aos dois gramados usados por eles como “Brazilian Fields”. O nome não só pegou, como foi oficialmente batizado pela organização do parque no início dos anos 2000. Mas antes mesmo, a popularidade já era alta. A longa tradição despertou o interesse de muita gente ligada ao futebol na Austrália. Les Murray, por exemplo, jornalista e apresentador da SBS, é considerado membro honorário e padrinho do clube". Andy Harper, apresentador da Fox Sports, Michael Cockerill, comentarista da Fox Sports e colunista do Sydney Morning Herald, e Liz Deep-Jones, ex-apresentadora do SBS, também são grandes entusiastas dos Canarinhos. Mas ninguém se compara ao lendário Johnny Warren, aquele mesmo que conduziu a Austrália à sua primeira Copa do Mundo, em 1974.




Warren, amante do futebol e da cultura brasileira, foi casado com uma brasileira, esteve mais de 30 vezes no país e durante anos freqüentou o Brazilian Fields. Ele sempre lutou pelo futebol australiano e foi um dos que mais defendeu a criação da A-League, a atual liga profissional que substituiu, em 2005, a antiga
National Soccer League. Warren, porém, não pode vê-la concretizada, pois faleceu um ano antes após longa luta contra o câncer.

Não só a Austrália sentiu a morte de Warren, como também os Canarinhos. Para homenagear o amigo, eles realizaram uma grande festa em Surry Hills, que atraiu centenas de pessoas. Em 2003, já haviam promovido no Coogee Bay Hotel um evento beneficente para arrecadar alimentos para a campanha Fome Zero, recém-lançada no Brasil. E, anualmente, organizam atividades no Brazilian Fields como o Mother´s Day, festa de dia das mães que reúne cerca de 400 pessoas. Recentemente, também criaram uma escolinha de futebol para crianças, o SBSC Little School of Football.

 


O clube sonha em ter uma sede própria, em poder oferecer muito mais para os brasileiros que estão aqui, para os que chegam e, principalmente, para os filhos de todos estes que há décadas trocaram o Brasil pela Austrália. Para quem está desembarcando em Sydney e quer bater uma bola, é só chegar um pouco antes das 11 horas no Brazilian Fields, em qualquer domingo, e jogar. “São todos bem-vindos”, diz Marcone, o atual presidente. E que venha o bicampeonato este ano!

Os campeões de 2008: Abel, Alex, Balu, Caio, Dani, Dave, Dinamite, Gel, Guilherme, Júnior, Leandrinho, Liminha, Marcone, Marrinho, Narcizo, Paulo, Pedrão, Renan, Ronaldo, Rui, Sérgio, Tino, Tony, Vladimir e Zezão. Técnicos: Nélio e Valdeci.

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